(...) porque eu tenho pesadelos que parecem tão reais até quando você me
abraça. (...) E eu acordo triste. É como se eu sentisse um ciúme horroroso do meu livro predileto
comprado em sebo, a dedicatória apaixonada que não é a minha, os
resquícios do manuseio de outras mãos. Alguém corrompeu o trecho que eu
mais gostava quando grifou à caneta algo que não pude apagar com
borracha e que era tão secretamente meu. Desenhou corações onde só havia
minha dor e eu discordei da interpretação alheia. E achei aquilo tudo
de uma crueldade atroz. Mas permaneci com o livro no colo, cheia de um
afeto confuso por ele: afeto pelo que era, angústia por já ter sido de
outro alguém, e aquela sensação (imbecil) de falta de exclusividade. Eu
que sempre achei que tudo é e está para o mundo. Perdoa o meu senso de
auto importância, já que não consigo perdoar o meu egoísmo. Eu sei que em
alguns presentes, no embrulho, laços do passado são aproveitados. Eu só
queria que eles não fossem tão vermelhos: desses que doem nos olhos e
no coração.
(Marla de Queiroz)

“Ah! Tu, livro despretencioso, que, na sombra de uma prateleira, uma criança livremente descobriu, pelo qual se encantou, e, sem figuras, sem extravagâncias, esqueceu as horas, os companheiros, a merenda... tu, sim, és um livro infantil, e o teu prestígio será na verdade, imortal.
ResponderExcluirCecília Meireles